

O setor da construção em Portugal enfrenta atualmente uma das suas maiores limitações estruturais. Apesar de uma procura robusta impulsionada pela habitação, reabilitação urbana, infraestruturas, energia e equipamentos públicos, a capacidade de resposta das empresas permanece condicionada pela escassez de recursos humanos. Segundo estimativas da AICCOPN, existem entre 80 mil e 90 mil postos de trabalho por preencher no setor, abrangendo praticamente todas as especialidades, desde funções operacionais a perfis técnicos altamente qualificados.
Esta realidade ultrapassa largamente o âmbito de uma dificuldade conjuntural de recrutamento. Representa, antes, uma restrição estrutural à capacidade produtiva da economia portuguesa. A insuficiência de mão-de-obra qualificada limita o ritmo de execução dos projetos, pressiona estruturas de custos, aumenta o risco de derrapagens nos cronogramas e pode comprometer a concretização de investimentos estratégicos, tanto públicos como privados.
O tema assume particular relevância num contexto em que convergem múltiplos vetores de investimento: execução do PRR, expansão das infraestruturas ferroviárias e aeroportuárias, reforço das redes energéticas, programas de reabilitação urbana e resposta ao défice habitacional. A pressão sobre a oferta de trabalho surge precisamente no momento em que o pipeline potencial de obras atinge níveis historicamente elevados (ECO).
A atual escassez de profissionais resulta da combinação de fatores demográficos, económicos e operacionais que se têm vindo a acumular ao longo da última década.
Por um lado, a força de trabalho do setor apresenta um perfil cada vez mais envelhecido, enquanto a renovação geracional permanece insuficiente. As profissões ligadas à construção continuam a enfrentar desafios de atratividade junto das gerações mais jovens, frequentemente associadas a maior exigência física, perceção de instabilidade e oportunidades de progressão menos evidentes quando comparadas com outros setores. (Observador)
Por outro lado, o problema não se limita à dimensão quantitativa da oferta de trabalho. Existe igualmente um défice crescente de competências especializadas. Mesmo quando existe disponibilidade de trabalhadores, nem sempre estão reunidas as qualificações necessárias para responder às exigências técnicas de projetos mais complexos, nomeadamente nas áreas de instalações especiais, eficiência energética, estruturas metálicas, automação, construção modular ou gestão digital de obra.
O impacto já é mensurável. Um inquérito da AICCOPN identificou a escassez de trabalhadores qualificados como o principal constrangimento para 86% das empresas de obras privadas e 75% das empresas de obras públicas. A falta de mão-de-obra traduz-se, assim, num problema de capacidade, mas também de margem e de risco de execução. (Negócios)
Neste enquadramento, as empresas enfrentam uma questão estratégica mais ampla: como aumentar a capacidade de execução sem depender exclusivamente da expansão da força de trabalho disponível.
A industrialização da construção surge como uma das respostas mais relevantes ao atual desequilíbrio entre oferta e procura de mão-de-obra.
A crescente adoção de modelos de pré-fabricação, construção modular, produção industrializada de componentes, BIM e ferramentas avançadas de gestão de obra permite transferir parte significativa da atividade para ambientes mais controlados, previsíveis e escaláveis. O resultado traduz-se em ganhos de produtividade, redução de desperdícios, melhoria do planeamento e utilização mais eficiente dos recursos especializados.
O objetivo não consiste em substituir o fator humano, mas sim em aumentar a produtividade marginal de cada equipa. Empresas capazes de reduzir a intensidade de trabalho em estaleiro, antecipar falhas de execução e normalizar componentes construtivos tornam-se estruturalmente menos expostas às restrições do mercado laboral.
Esta transformação favorece igualmente o posicionamento de empresas especializadas em áreas como caixilharia, fachadas, instalações técnicas, estruturas metálicas, pré-fabricados, equipamentos industriais e soluções tecnológicas para gestão de obra. Em paralelo, reforça a atratividade de modelos de integração vertical que permitam controlar um maior número de etapas críticas da cadeia de valor.
É neste contexto que o M&A assume uma relevância estratégica crescente.
Embora as operações de aquisição não resolvam o défice estrutural de mão-de-obra à escala nacional, podem constituir um mecanismo altamente eficiente para acelerar o acesso a competências, equipas, capacidade produtiva e know-how especializado que demorariam vários anos a desenvolver de forma orgânica.
Existem quatro racionais particularmente relevantes para investidores estratégicos e financeiros.
Reforço das capacidades de suporte: O crescimento inorgânico pode igualmente abranger áreas adjacentes à execução da obra. Empresas de recrutamento especializado, formação técnica, software de gestão de obra, BIM, manutenção ou gestão de ativos podem desempenhar um papel importante no reforço da capacidade de atrair, desenvolver, coordenar e reter talento.
Para investidores institucionais e compradores estratégicos, a criação de valor não deve assentar exclusivamente no aumento da escala ou do volume de faturação.
As oportunidades mais relevantes tendem a resultar da melhoria da produtividade operacional, da redução da dependência de subcontratação e da otimização da utilização das equipas.
Consequentemente, a análise de uma oportunidade de investimento deve ir além dos indicadores financeiros tradicionais. A tomada de decisão deverá ancorar-se de forma aprofundada na composição das equipas, nos níveis de retenção de talento, na dependência de profissionais-chave, no recurso a subcontratação e na qualidade do backlog.
Empresas com forte crescimento histórico ou elevada visibilidade comercial podem, em determinados casos, apresentar riscos operacionais significativos caso a sua capacidade de execução dependa excessivamente de recursos externos ou de colaboradores críticos difíceis de substituir.
A escassez de mão-de-obra constitui atualmente um dos principais fatores limitativos do crescimento do setor da construção em Portugal. A resolução do problema exigirá uma combinação de políticas públicas, investimento em formação, imigração qualificada, digitalização e industrialização dos processos construtivos.
Neste contexto, o M&A pode desempenhar um papel relevante na aceleração da transformação do setor. Ao permitir a aquisição de competências, equipas especializadas, tecnologia e capacidade industrial, o crescimento inorgânico oferece às empresas uma via mais rápida para expandir a sua capacidade de execução sem depender exclusivamente do recrutamento orgânico.
No entanto, a criação de valor sustentada dependerá sobretudo da qualidade da integração e da capacidade de capturar sinergias operacionais. As transações mais bem-sucedidas serão aquelas que contribuam para construir plataformas mais produtivas, tecnologicamente diferenciadas e estruturalmente menos dependentes de modelos intensivos em mão-de-obra.
Consultor Financeiro
