

O mercado tecnológico norte-americano está a atravessar uma mudança relevante na canalização de capital. Depois de vários anos em que o investimento se concentrou no desenvolvimento de software, em plataformas SaaS e em aplicações digitais escaláveis, a prioridade está a deslocar-se para dois polos complementares: a infraestrutura necessária para suportar a IA e os casos de utilização capazes de demonstrar valor económico concreto.
O mercado deixou de premiar, de forma indiferenciada, o crescimento de users ou de ARR e passou a questionar quais as empresas que serão efetivamente relevantes numa economia em que a computação, os dados e os agentes de IA alteram a forma de desenvolver, distribuir e consumir tecnologia.
Durante o último ciclo tecnológico, o software beneficiou de uma combinação particularmente favorável: distribuição digital, modelos de subscrição, baixos custos marginais e forte crescimento da procura empresarial. As plataformas SaaS tornaram-se alvos privilegiados de investidores institucionais e compradores estratégicos, suportadas por métricas como ARR, retenção e expansão da receita por cliente.
A emergência da IA alterou esse enquadramento. A tecnologia pode automatizar funcionalidades que anteriormente justificavam aplicações autónomas, pressionar modelos de pricing baseados no número de utilizadores e reduzir as barreiras à entrada em determinados segmentos. Consequentemente, a questão central já não é apenas se uma empresa de software é facilmente escalável, mas se o seu produto possui dados proprietários, workflows incorporados, distribuição relevante ou capacidade para se tornar uma camada indispensável na adoção empresarial de IA. (PwC)
Esta reavaliação explica a pressão sobre as avaliações de parte do software tradicional e a maior seletividade na atividade de M&A. A incerteza quanto à durabilidade de alguns modelos SaaS está a aumentar os diferenciais entre preço pedido e valor suportado; este fosso traduz-se numa deslocação do capital para ativos posicionados nos dois polos da cadeia de valor das novas tecnologias: infraestrutura de computação de IA e aplicações da mesma com valor acrescentado claro para os clientes B2B e B2C. (ION Analytics)
A primeira grande alteração na preferência de investimento está na ascensão da infraestrutura de IA. O desenvolvimento e a utilização de modelos avançados exigem capacidade significativa de processamento, armazenamento, conectividade e energia. O investimento está, por isso, a abranger não apenas data centers e cloud, mas toda a cadeia de ativos que permite colocar essa capacidade em operação.
Entre os segmentos mais relevantes encontram-se:
As operações de M&A associadas ao mercado de data centers terão movimentado cerca de 69 mil milhões de dólares em 2025, distribuídas por 113 transações. Este volume demonstra que a infraestrutura deixou de ser uma camada técnica secundária para passar a ser um ativo estratégico, disputado por operadores, investidores institucionais e grandes empresas tecnológicas.
A lógica de investimento é semelhante à de outros grandes ciclos tecnológicos: o crescimento das aplicações cria procura por fornecedores de capacidade essencial. Neste caso, a escassez de compute, energia e espaço disponível pode representar uma barreira mais imediata do que a diferenciação de muitas aplicações finais.
Esta mudança é igualmente visível no Venture Capital. Os dados partilhados sobre a cohort de 2026 da Y Combinator apontam para uma concentração muito elevada em IA: 173 das 196 empresas analisadas tinham IA ou agentes de IA como elemento central. O B2B continuava dominante, com 120 empresas, enquanto cerca de 70% dos fundadores apresentavam formação técnica.
O sinal mais relevante está, contudo, no crescimento do hard tech. As startups industriais e de tecnologia física passaram de aproximadamente 3% das cohorts, há três anos, para cerca de 13% atualmente. A cohort inclui empresas de defesa, refrigeração de data centers, materiais para semicondutores, infraestrutura de compute, robótica e manufatura avançada. Esta tendência é consistente com análises independentes da Winter 2026, que identificam uma maior densidade de hardware e uma inclinação mais acentuada para a IA física. (CB Insights) O capital early-stage está, assim, a financiar não apenas aplicações de IA, mas os ativos físicos que permitem desenvolvê-las e operá-las. Trata-se de uma alteração importante: o investimento tecnológico está a aproximar-se de ciclos de inovação mais intensivos em capital, mais dependentes de engenharia e mais relacionados com prioridades industriais e geopolíticas. (StartGround)
A mudança também está a ocorrer na própria camada de software. As startups estão cada vez mais a construir produtos para agentes de IA, e não apenas aplicações utilizadas diretamente por pessoas. Se um agente vai executar tarefas em nome de um utilizador ou de uma empresa, necessita de identidade, pagamentos, permissões, memória, autenticação, comunicação e mecanismos de auditoria.
Esta nova camada de infraestrutura pode tornar-se particularmente relevante em serviços financeiros, procurement, software empresarial ou operações administrativas. O racional deixa de ser apenas “o que pode a IA fazer?” e passa a ser “de que necessita um agente para funcionar com autonomia, segurança e capacidade de integração?”.
O valor tenderá a concentrar-se nas soluções que permitam aos agentes atuar dentro de limites definidos, com rastreabilidade e acesso controlado aos sistemas existentes. A próxima camada de software poderá, por isso, ser menos orientada para interfaces humanas e mais orientada para a coordenação entre agentes, empresas e sistemas.
A preferência de investimento no setor tecnológico deslocou-se do SaaS enquanto para os ativos que controlam a infraestrutura da IA e para as aplicações que demonstram valor operacional concreto. O mercado está a assumir uma configuração cada vez mais polarizada. De um lado, grandes operações estratégicas destinadas a assegurar capacidade, distribuição ou posicionamento tecnológico; do outro, aquisições direcionadas para incorporar competências específicas em IA, segurança, dados ou integração.
Os compradores estratégicos têm vantagem neste contexto, porque podem justificar investimentos com base em sinergias operacionais e não apenas em retorno financeiro autónomo. No primeiro semestre de 2026, representaram 90% do valor das transações tecnológicas na América do Norte, refletindo a urgência em adquirir as competências no curto-prazo, atalhando ciclos de I&D internos.
Os sinais do mercado early-stage reforçam esta leitura: a IA tornou-se a base tecnológica, enquanto o investimento se move para a infraestrutura física, a camada de operação dos agentes e os serviços que a IA consegue transformar.
Para o mercado de M&A, o momento combina oportunidade e incerteza. A infraestrutura oferece visibilidade sobre uma necessidade estrutural, mas exige capital intensivo. Os use cases oferecem maior potencial de crescimento, mas dependem de validação comercial. E o software tradicional não desaparece: será reavaliado em função da sua capacidade de adaptação, integração e relevância num ecossistema tecnológico cada vez mais orientado por e para IA.
Consultor Financeiro
